MISSÃO AMAZÔNIA ETE e RJE

03/09/2026

A Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE FMC) participa de uma iniciativa da Companhia de Jesus que alia tecnologia, educação, sustentabilidade e compromisso social para contribuir com comunidades indígenas e ribeirinhas do Amazonas. A atuação da instituição está relacionada ao trabalho desenvolvido pela Companhia de Jesus na região, considerada uma de suas prioridades apostólicas, e envolve ações voltadas à ecologia integral, aos direitos humanos, à justiça socioambiental e à formação.

A iniciativa conta com a participação da Equipe Itinerante da Amazônia, experiência missionária, inter congregacional e itinerante que atua desde 1998 junto a comunidades indígenas, ribeirinhas e populações tradicionais localizadas em regiões de difícil acesso. O trabalho busca escutar, acompanhar e caminhar junto aos povos amazônicos, fortalecendo comunidades e redes locais.

É nesse contexto que a ETE FMC passou a colaborar com o Projeto FLORA, iniciativa espanhola voltada à formação, ao desenvolvimento sustentável e à promoção dos direitos humanos e territoriais de comunidades indígenas e ribeirinhas Sateré-Mawé, na região do Alto Urupadi, no Amazonas.

Convidada a participar do projeto em 2024, a ETE FMC atua na implantação de sistemas fotovoltaicos e na capacitação das comunidades. A instituição participa do planejamento, da instalação e da manutenção das usinas, além de contribuir para a formação dos moradores, permitindo que eles compreendam o funcionamento, a operação e a conservação dos sistemas.

Um dos objetivos da iniciativa é contribuir para a criação de uma Escola-Oficina de Energias Renováveis, formando moradores locais para a construção, operação e manutenção dos sistemas fotovoltaicos. A proposta busca ampliar a autonomia das comunidades e garantir que o conhecimento necessário para a conservação das usinas permaneça no próprio território.

Energia que transforma a vida das comunidades

Em diversas localidades atendidas pelo projeto, o acesso contínuo à energia elétrica era inexistente. Antes da implantação dos sistemas fotovoltaicos, a alternativa disponível era geradores movidos a diesel. Segundo o projeto, esses equipamentos consumiam aproximadamente três litros de combustível por hora, representando um custo estimado de R$ 30 por hora de funcionamento, além das dificuldades logísticas para transportar o diesel pelos rios.

Em alguns locais, os geradores funcionavam somente cerca de duas horas por dia. Nesse período, praticamente toda a energia disponível era utilizada para bombear água de poços artesianos para as caixas-d’água das comunidades, garantindo o abastecimento e possibilitando o preparo dos alimentos.

A implantação de sistemas fotovoltaicos com baterias ampliou significativamente o período de disponibilidade de energia, chegando, em algumas situações, a 24 horas por dia. A mudança trouxe impactos concretos para a rotina dos moradores.

Com o acesso à energia, as famílias passaram a utilizar geladeiras e freezers, permitindo conservar pescado e outros alimentos, reduzir perdas e armazenar parte da produção para consumo posterior. Os sistemas também possibilitam o bombeamento de água, a iluminação das residências e áreas comunitárias, além de favorecer a comunicação, a educação e novas formas de organização da vida cotidiana.

Um dos episódios que simboliza essa transformação ocorreu durante o retorno da equipe a uma das comunidades, em 2026. Na ocasião, os integrantes foram recebidos com um copo de água gelada — algo simples, mas que não seria possível no ano anterior. Em uma região onde as temperaturas podem chegar a 40 graus ou mais, a possibilidade de conservar água e alimentos representa uma mudança concreta na qualidade de vida.

Tecnologia a serviço da autonomia

Os impactos do acesso à energia vão além do conforto e das necessidades básicas. Entre os objetivos do projeto está também o fortalecimento da autonomia e da soberania econômica das comunidades.

Os Sateré-Mawé, um dos povos atendidos pela iniciativa, vivem principalmente no Amazonas, especialmente na região da Terra Indígena Andirá-Marau. De acordo com as informações reunidas no projeto, são aproximadamente 13 mil pessoas distribuídas em cerca de cem comunidades, em uma área de aproximadamente 780 mil hectares.

Com uma relação histórica e profunda com o território, os rios e a floresta, os Sateré-Mawé mantêm práticas tradicionais como a caça, a pesca e a agricultura. A produção agrícola é baseada principalmente na agricultura de subsistência, com destaque para a mandioca, o milho e, sobretudo, o guaraná.

O guaraná possui importância econômica, cultural e espiritual para o povo Sateré-Mawé. O conhecimento relacionado ao cultivo e ao processamento é transmitido entre gerações, e a produção orgânica, inclusive destinada a mercados internacionais, representa uma possibilidade de geração de renda que combina tradição e inovação.

Nesse contexto, o acesso à energia elétrica pode contribuir para que as comunidades beneficiem e armazenem sua própria produção, possibilitando a comercialização direta por preços mais justos e reduzindo a dependência de intermediários.

A iniciativa também está relacionada à permanência dos povos amazônicos em seus territórios. Ao oferecer melhores condições de infraestrutura e possibilidades de desenvolvimento, o projeto contribui para que as comunidades possam permanecer em suas localidades com mais dignidade e autonomia.

Uma experiência que também transforma a escola

A atuação da ETE FMC na Amazônia não se limita à dimensão técnica. A experiência de campo passa a integrar uma proposta pedagógica da instituição e da Rede Jesuíta de Educação (RJE), voltada à formação integral dos estudantes.

A proposta articula o estudo da Amazônia e dos povos Sateré-Mawé e das comunidades ribeirinhas a temas como sustentabilidade, energias renováveis, diversidade cultural e desafios socioambientais contemporâneos.

A abordagem busca evitar uma visão simplificada ou folclorizada da Amazônia e dos povos originários, estimulando os estudantes a compreenderem a região em suas dimensões humana, cultural, ambiental, política, tecnológica e econômica.

Temas como território, saúde, mobilidade, produção de alimentos, energia, água, logística, comunicação, soberania econômica e organização comunitária são trabalhados de maneira interdisciplinar.

Para uma escola técnica, a experiência também evidencia que a tecnologia está diretamente relacionada às pessoas e às suas necessidades. Conceitos estudados em sala de aula, como tensão, corrente, potência, eficiência, baterias e inversores, ganham uma dimensão concreta quando aplicados a situações reais.

Um painel fotovoltaico pode significar água chegando à caixa-d’água de uma comunidade. Uma bateria pode representar mais horas de iluminação. Um sistema de energia solar pode permitir que uma família conserve o peixe pescado para alimentar os filhos posteriormente.

É nesse encontro entre conhecimento técnico e realidade humana que se encontra uma das principais dimensões educativas do projeto, integrando técnica, Humanidades, sustentabilidade, cultura, investigação científica, Pastoral e consciência ecológica.

Expedição de 2026

Em 2026, a ETE FMC enviou oito colaboradores para uma expedição de 15 dias pela região, juntamente com voluntários da Espanha e outros participantes envolvidos no projeto.

Durante o período, a equipe visitou 12 comunidades. Dez delas já possuíam usinas fotovoltaicas, nas quais foram realizados levantamentos, avaliações das condições dos equipamentos e trabalhos de manutenção. Em outras duas comunidades, foram implantados novos sistemas fotovoltaicos.

Além das atividades técnicas, a equipe realizou o levantamento de necessidades e manteve diálogo direto com os moradores, fortalecendo a dimensão comunitária da iniciativa.

A experiência também proporcionou aprendizados para os próprios integrantes da ETE FMC. O contato com as comunidades revelou uma população marcada pela hospitalidade, pela convivência e pela partilha. Mesmo diante de condições materiais simples, as famílias mantêm uma intensa vida comunitária e compartilham aquilo que possuem.

A vivência na Amazônia amplia, assim, o significado da própria missão educativa da ETE FMC. Ao levar conhecimento técnico às comunidades, a escola também recebe de volta histórias, experiências e saberes construídos por povos que convivem com a floresta há gerações.

Essa relação estabelece uma verdadeira via de mão dupla: a ETE FMC contribui para levar energia e conhecimento à Amazônia, enquanto a Amazônia proporciona novos conhecimentos e experiências para a escola.

A iniciativa demonstra, dessa forma, que educação, tecnologia e compromisso social podem ultrapassar os limites da sala de aula e contribuir para transformações concretas. Ao mesmo tempo, reafirma a importância de uma formação técnica conectada às pessoas, aos territórios e aos desafios ambientais e sociais do presente.

Missão Amazônia

 

A Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa” é mantida pela Associação Nóbrega de Educação e Assistência Social (ANEAS), instituição de direito privado sem fins lucrativos, filantrópica, de natureza educativa, cultural, assistencial e beneficente, certificada como Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS), nas áreas de educação e assistência social.

Na área de educação, desenvolve o Programa de Inclusão Educacional e Acadêmica (PIEA), oferecendo bolsas de estudo e benefícios complementares, para os níveis de educação básica, garantindo o acesso, permanência e a aprendizagem.

Na área de assistência social desenvolve serviços, programas e projetos nas categorias de atendimento, assessoramento, defesa e garantia de direitos, de acordo com o Art. 3º da Lei Orgânica de Assistência Social.

A ANEAS atua em conformidade à legislação vigente por meio da Lei Complementar nº 187 de 16 de dezembro de 2021.

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